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O que penso da bipolaridade

Depoimento: Maria Cristina

" Para toda a perda existe ganho, convivo há muitos anos com minha bipolaridade, aprendi que não posso esquecer do lítio, jamais.
Desde então posso ter uma vida normal, claro que um bipolar pode e deve ter uma vida normal, basta para isto controlar seus remédios, nada diferente de um hipertenso ou diabético bem se for inúmeras aqui vai faltar espaço para doenças que precisam ser controladas.
A diferença é que nós os bipolares podemos sim com uma vida normal, o que não dá para nós é uma vida comum.
Não sei se alguns vão concordar comigo, mas sinto, mesmo completamente equilibrada dosando meu lítio no sangue, mais força de vontade viva mais intensamente, penso mais rápido que meus funcionarios, e colegas tudo com um prazer muito grande e um empenho, disciplina. Penso que a bipolaridade não foi nem de longe algo ruim DEPOIS DE TRATADA devidamente."

Maria Cristina

Um pouco da minha história


Saudações a todos

Meu nome é Juracy e lendo as histórias postados nesse blog, me veio o desejo de compartilhar com os amigos meus pedações ou cacos que estou ainda recolhendo, a despeito de ter sido diagnosticado há mais de cinco anos com o transtorno.

Negro, de família muito simples, pais iletrados, fui educado na periferia de Vitória, no Estado do Espírito Santo, comecei a carreira profissional limpando prateleiras em supermercados, quando aos 17 anos decidi me casar. Sem concluir o ensino médio, vivendo uma vida bastante difícil, resolvi retomar os estudos. 

Com a ajuda de amigos nos empréstimos de livros e compreensão de algumas matérias, consegui concluir o segundo grau, como era chamado à época. Visando melhorar a renda, submeti ao concurso público para soldado da polícia militar, quando fui aprovado e exerci a atividade policial por dois anos, pois percebi que caso continuasse os estudos poderia alcançar outras possibilidades.

Em 1990 fui aprovado no concurso da Justiça Federal do Estado do Rio de Janeiro, onde trabalhei por 04 anos e depois fui removido para a Justiça Federal do Espírito Santo.

Em 1994, ingressei na Universidade Federal do Espírito Santo, no curso de direito, tendo concluído em 1999. 

Casado, com três filhos, bem sucedido no serviço público, pois passei a exercer cargos importantes na Justiça Federal, como supervisor e depois diretor de secretaria do juízo, retornei a me dedicar novamente aos estudos.

Em 2004 fui aprovado em quarto lugar no concurso de Juiz de Direito do Estado de Rondônia. No mesmo ano, fui aprovado no concurso de Juiz de Direito do Estado do Espírito Santo. 

Iniciei a judicatura no interior do Estado, bem como na docência do ensino superior. Após 4 anos de muito trabalho e dedicação, já que a função se tornou mais importante do que minha própria vida e minha família, começou a surgiu um comportamento de descontrole. Começou pela perda do sono, depois veio a hipersexualidade, e por fim a compulsividade para compras. Comecei a me envolver com qualquer tipo de pessoa. A mesma comarca, onde os jurisdicionados me considerava um magistrado brilhante, começaram a me recomendar a corregedoria, pois não havia limites no meu comportamento. Perdi completamente o controle social e a percepção da realidade. Perdi minha identidade. A situação ficou tão grave que não resisti a uma tentativa de suicídio. Quando notei que havia alguma coisa de errado, procurei uma psicóloga. Foram vários meses tentando descobrir o que estava acontecendo. Os medicamentos receitados somente pioravam a situação e em 2009 fui diagnosticado com o TAB. O mundo caiu pra mim.

Recusei aceitar o diagnóstico, mas a desorganização social era tamanha que não havia margem de dúvida sobre a veracidade do laudo. Iniciei o tratamento, mas já era tarde, o lastro condutal impedia continuar a atividade jurisdicional.

Foi inevitável a apuração de processo administrativo disciplinar. Antes de sua conclusão, fui aposentado por invalidez, em decorrência do transtorno.

Me submeti ao tratamento, com muita responsabilidade, pois o desarranjo social foi muito grave.Consegui me estabilizar um ano depois do diagnóstico.

Após o período de estabilização, fiz duas especialização e um mestrado.

Fui ordenado a uma função eclesiástica (a fé me fez sobreviver a tudo isso).

Nesse período fui reparando os danos passíveis de acertos, como as dívidas contraídas. Mas não escapei do preconceito.

Luto com o estigma, o Tribunal de Justiça não reconhece que uma pessoa em meio a um surto psicótico é capaz de fazer tantas ocorrências sem inibição social.

Estou estabilizado há 5 anos, mas ainda não consigo lidar com os conflitos internos da tristeza, da angústia e da dor.

Apesar de ter preservada minha capacidade laborativa, não posso trabalhar por força de incompreensão sobre a doença; Meus pares não aceitam que o transtorno é capaz de trazer tantos danos sociais a seu portador. e se recusam a debater o assunto, enquanto luto para provar o que aconteceu à época. Fiz diversas perícias com médicos renomados no Brasil sobre o TAB.

A todo tempo, o sentimento de desistência toma conta da minha alma. Mas, no que pese a força desse sentimento, curvo-me a pensar nas outras pessoas que sofrem do mesmo dilema. Se não lutarmos, o estigma continuará sendo um fantasma invencível. 

Fui exposto na mídia, além de impor intenso sofrimento a minha família, já que os fatos não foram poupados. No entanto, ainda estou resistindo, com apoio de poucos.    

Por fim, creio que a maior superação está no fato de não precisarmos do anonimato. Temos que nos mostrar, temos um transtorno, que não reivindicamos, mas ocorreu como fato da vida, como acontece com a pessoa cardíaca, diabética etc... Precisamos nos unir em torno da informação, da aprovação do crime de "psicofobia" (preconceito a qualquer tipo de transtorno), cujo projeto de lei está em curso no senado federal.

Tenho 47 anos de idade, 30 anos de casado, três filhos, e sou bipolar. Conquanto tenho uma mente inquieta, acredito que temos o direito de sermos respeitados nas nossas diferenças, bem como de não sermos etiquetados.

Juracy Jose da Silva 

Desabafo sobre minha bipolaridade

Olá, meu nome é Lara, tenho 18 anos e fui diagnostica com Transtorno de Humor Bipolar há mais ou menos um ano, os sintomas já estavam presentes desde a minha saída da infância e entrada à adolescência, mas como meus pais consideravam frescura e drama, só fui levada à sério quando a situação já estava quase impossível de lidar. Quando descobri que sou bipolar, já na primeira consulta, meu mundo desabou, de repente tudo que eu sabia e acreditava tinha se tornado incerto, achei ridícula a ideia de ter que passar o resto da vida dependendo de medicamentos para ficar bem, eu simplesmente não podia suportar essa ideia, acordava todos os dias pedindo para ser “normal” e tudo ter sido só um sonho. Meu grande problema sempre foi a aceitação, não consigo aceitar que tenho um problema e tenho que lidar com isso. Tive e tenho constantemente vontade de sumir, simplesmente por não suportar mais ser tão instável. Parece impossível a ideia de suportar que eu estou bem e 5 minutos depois posso desabar em choro ou explodir com as pessoas à minha volta. Eu até me acostumei com a parte da explosão, o difícil é a sensação que vem depois, o sentimento de ser um lixo de pessoa por magoar as pessoas que me amam, que fazem tudo pra me ver bem. E essa parte é a que sempre acaba comigo, por conta disso, já tentei cometer suicídio e já fiz muita coisa pra tentar “fazer meus pensamentos sumirem”. O caso é que eu não consigo lidar com o transtorno e com a depressão, parece impossível. Também não consigo expor meus sentimentos com clareza para a minha psiquiatra e sei que só por conversar, sentiria um peso enorme saindo das minhas costas, mas sempre tive uma dificuldade enorme pra conversar com as pessoas, dizer as piores coisas, as que mais me afetam. E em meio a tanto desespero, encontrei esse blog e tive a ideia de escrever, como um desabafo, na esperança de conseguir me sentir melhor, de talvez atrair a atenção de alguém que tenha o mesmo problema que o meu, acho que é o que preciso, afinal, conversar com alguém que entenda claramente o que sinto, sem considerar drama, frescura ou qualquer coisa nesse gênero, como todos sempre consideraram.

Lara 

Sobrevivencialismo

 Desabafo postado por Luna:


     

    Sobrevivencialismo

“No fundo, não estava pronto. Se já soubesse melhor o que era o sobrevivencialismo, teria entendido que minha tentativa de retorno estava condenada a uma série de problemas. Quando tinha um dia ruim, minha tendência era dizer o seguinte: “Bom, é que já sofri demais. Passei por três cirurgias, três meses de quimio e um ano de inferno, e por isso não estava correndo bem. Meu corpo nunca mais vai ser o mesmo.” Na verdade, eu deveria dizer apenas, "Meu, foi só um dia ruim”.

- Lance Armstrong



A doença de Lance Armstrong era Cancêr, mas o sentimento que ele expressa, durante o período de remissão, é idêntico ao meu, do meu período de remissão...A diferença está no preconceito.

Quando Lance começou a ficar doente ele não quis ver que estava doente, lutou contra isso e quando finalmente enxergou que estava doente e recebeu o diagnóstico recebeu apoio total de todos seus amigos, namorada e companheiros de equipe....

Quando eu fiquei com depressão, eu não sabia, lutei contra mim. Meus colegas de trabalho me trataram como se eu, a vida inteira, tivesse sido fraca, preguiçosa e descomprometida...

A essa altura eu não sabia que estava doente. Ninguém tinha idéia do esforço enorme que eu fazia para chegar no trabalho... Era como se eu fosse um carro que precisasse pegar no tranco, precisava alguém para empurrar, só que não tinha ninguém, então eu tinha que me arrastar até uma ladeira e pegar no tranco...isso levava horas.

Quando Lance não sabia que estava doente também percebia que precisava fazer um esforço muito maior para conseguir resultados muito menores, inclusive nos treinos.

Não desistimos!!

Quando entrei em remissão, no entanto, tudo o que eu queria ter tido era Cancêr! Seria mais fácil encarar as pessoas se eu tivesse tido Cancêr em vez de Depressão.

Quando se trata de uma doença física, assim, concreta, em que se pode ver a deterioração da pessoa, quando essa entra em remissão, as outras estão com o coração mais aberto, mais tolerantes (afinal, o doente não tem culpa de ter ficado doente...).

Quando se trata de uma doença mental, assim, concreta, em que se pode ver a deterioração da pessoa (só não vê quem não quer), quando essa entra em remissão, as outras pessoas que já achavam mesmo que seu problema era preguiça, não estão dispostos a ser nem mesmo receptivos, querem mesmo é livrarem-se de você (afinal, se foi preguiçoso uma vez e nos trouxe tantos problemas, pode trazer de novo...).

A essa altura, todo mundo esquece, muitas vezes até o próprio doente mental, que a doença mental não é imaginária. É física também! Acontece num local físico, por falta de elementos químicos...

Eu gostaria de mudar o nome da doença de novo... da Bipolaridade, é claro...Já que tentaram mudar muitas vezes, a fim de evitar o preconceito... deixa eu propor o nome que acho que daria certo: Transtorno Cancerígeno Bipolar.

Não deixa de ser um Cancêr... Trata-se de um crescimento desordenado dos humores, pra cima ou pra baixo...

Sabe, acho que é Cancêr sim, do pior tipo, é invisível, pode matar de uma hora pra outra ou lentamente... o diagnóstico é, em alguns casos, muito mais difícil do que o diagnóstico do outro Cancêr, e a doença pode ficar latente no organismo da pessoa por anos, sem nunca se manifestar, até que aconteça um evento stressor que provoque o gatilho da doença... ou nunca aconteça esse gatilho.

Isso significa, que todo mundo pode ter essa doença latente dentro de si!!

A semelhança, entre uma doença e a outra são interessantes, pelo menos no período da Remissão... A do Cancêr, no caso do Lance Armstrong, era um ano. Durante um ano ele teria que fazer exames periódicos para saber se o Cancêr tinha voltado ou não... A diferença está aqui: a remissão do Transtorno Bipolar do Humor é eterna.

O tempo inteiro temos que estar atentos para que um sintoma ou outro não seja sinal de que a doença está voltando.

Em remissão, tenho um grande medo de voltar aos estados instáveis. Tal como Lance Armstrong tinha medo do Cancêr voltar. Ele inclusive acreditava que as atitudes dele poderiam favorecer a volta do Cancêr. Eu tenho certeza que as minhas atitudes podem fazer a doença voltar e me roubar o meu precioso estado de Remissão.
Lance Armstrong pode agora, ter uma vida normal.

Eu nem sei o que é ter vida normal...

Estou descobrindo isso agora, que estou estável. Mas nunca tive essa sensação antes. Para mim é tudo muito novo. É tudo diferente. Eu estou gostando. Mas tenho medo.

Parece que não estou preparada para isso.

Esse medo de perder o estado de remissão é uma constante em tudo o que faço ou que vou fazer ou que quero fazer. Não sei como vou fazer para superar isso.
Mas vou superar!!

Algumas coisas precisam ser acertadas, meu coração ainda tem mágoas e ressentimentos, ainda não estou emocionalmente curada, mas isso eu posso trabalhar e mudar ou pelo menos não me deixar atingir por esses sentimentos...

Existem outras coisas que precisam ser acertadas e não sei se posso fazer isso, não depende só de mim, o estigma. Mas, esse é outro Cancêr, farei o possível para sobreviver a ele também.

"Não existe um sistema de apoio que ajude as pessoas a lidar com as implicações emocionais de voltar ao mundo depois de ter vencido uma batalha, pela própria existência."

- Lance Armstrong

Não me falta Fé, nem Coragem!! É isso tudo que tenho. É isso tudo o que vou usar!
Nunca fui uma pessoa de deixar "pra depois", sempre fui de dizer: "se tem que resolver, então vamos resolver" - uma espécie de lema.

Então, depois de um dia triste ou duro de trabalho, vou dizer: "Meu, foi só um dia ruim" - aprendendo com a experiência do Lance Armstrong.
Quem sabe se daqui há alguns anos, eu não faça como o Lance Armstrong e vença, não uma vez, mas 7 vezes, só na vida profissional, fora as inúmeras vitórias pessoais. E também, como Lance Armstrong disse, eu também possa dizer que essa fase difícil foi responsável pelas minhas vitórias.

"Não sou de carne e aço, mas meu osso é duro de roer."




- Autora: Luna