SONHOS POSSÍVEIS





O maior sonho de um portador de transtorno psiquiátrico é simplesmente ser compreendido, ter um relacionamento normal com as pessoas, com um parceiro ou parceira...

Somos pessoas difíceis, de difícil relacionamento. Muitas vezes não sabemos expressar o que estamos sentindo, e nós vemos que aqueles que estão ao nosso lado ficam sem saber o que fazer, e acabam tomando atitudes que ocasionalmente nos irritam. Somos surdos, numa terra de cantores de ópera! Somos cegos, sozinhos, atravessando a avenida mais movimentada da cidade!

Mas, nós sabemos, só não sabemos como dizer... Em várias ocasiões, demonstramos esse nosso “saber/sentir”, interpretando uma música, fazendo poemas ou contos, pintando, fotografando, esculpindo... Digo, posso até estar errada, mas os grandes artistas de qualquer seguimento da arte são portadores de algum transtorno, pois têm a sua sensibilidade aguçada a ponto de ir além do possível... Bem, nem todos podem ter, mas aqueles que têm algum transtorno, certamente são grandes artistas!

Sendo assim, veja bem, o que temos que vencer é a barreira da comunicação com os outros, tratando nossas mazelas da forma correta – mais uma vez – medicamentos, médico e psicoterapeuta – e procurando calar aqueles medos e inseguranças que povoam nossa mente... Tentar substituí-los por sonhos possíveis, sonhos de vida em paz, como um rio calmo correndo para o mar, sem pressa, sem barreiras, só com belas árvores e flores nas beiradas desse rio da nossa vida. Olhar quem nos cerca com paciência extraída do fundo deste rio, do fundo d’alma.

Difícil? Muito. Requer muito de nós, e nem sempre estamos com estado de espírito para isso... O fantasma da tristeza vive a nos assombrar... Mas, lembre: fantasmas também podem fazer “puff!” depois que você conseguir não ligar para eles! É tentar, com vontade, ou relaxar e deixar fluir esta tristeza para as profundas! Somente a tristeza deve ir. Eu, Você, Nós, temos coisa melhor para fazer! Tentar transformar o mundo daqueles que não tem nada, num mundo mais sensível. Só assim, eles entenderão o que estamos dizendo, o que precisamos, o que todos precisam – afeto, compreensão, carinho, amor.


Um texto de Lígia Flôres

Fonte: http://filosofiadaloucurasomostodosloucos.blogspot.com/

3 comentários:

Roselene Cândida disse...

Acredito que buscarmos compreensão das pessoas a nosso respeito e a todo custo não é a melhor das estratégias para vivermos. Primeiro, porque estaríamos renegando a nossa personalidade. Segundo, por buscarmos uma felicidade efêmera. E, por fim, por sentirmos que deveríamos nos adequar a um padrão de comportamento desumano, imposto por uma sociedade intolerante a quaisquer situações que fogem a aquilo que é chamado de "normalidade".
O meu maior sonho é que o respeito seja maior que quaisquer diferenças existentes entre seres humanos. Eu sou bipolar e não sou uma pessoa de difícil convivência, a não ser quando sou desrespeitada. O preconceito existe contra quaisquer pessoa que esteja com alguma doença, isto é antigo. E o legal é sermos nós mesmos, com nossas qualidades e defeitos, independentemente de sermos bipolares ou não.

Roselene Cândida disse...

E, com todo respeito à autora do texto, discordo dos ideais dela de sonhos possíveis. Ela está ainda presa a alguns estereótipos que impedem de compreender melhor o portador da bipolaridade e a si mesma. Olha um exemplo do que eu discordo do argumento de Lígia: existem artistas que não possuem sequer algum transtorno mental, da mesma maneira que existem portadores de bipolaridade que não tem veia artística. Eu mesma não me considero artista e sou bipolar.
Segundo: nem todo bipolar é de difícil relacionamento. Não apenas eu, mas aquelas que me conhecem consideram-me como alguém de fino trato e sem dificuldades de relacionamento. Eu só me torno "difícil" quando sou submetida a uma situação de preconceito e de desrespeito, como já aconteceu comigo em ambientes de trabalho anteriores. Aí, as pessoas me consideram "difícil" e "chata", como qualquer pessoa que não tem transtorno nenhum é.
E por último: temos que transformar o nosso mundo, aproveitando o que Deus nos reservou, para nos aperfeiçoarmos como pessoas. Uma postura mais altiva diante das dificuldades deve ser utilizada pelo bipolar, para que ninguém diga que ele se aproveita da doença.
Eu não me importo pelo o que as pessoas acham a meu respeito, até porque a bipolaridade é, para mim, uma doença controlável, como a diabete e a hipertensão. As pessoas devem me aceitar pelo o que eu sou e não pelo o que elas pensam que eu deva ser. Está aí um recado, que deve ser aproveitado. Desculpem-me pela franqueza, mas o texto é tão depressivo, que não perdi a oportunidade de discordá-lo. Dificilmente, entro em um blog para tecer um comentário que não concorde com a opinião do autor, mas infelizmente tive que fazer esta triste tarefa. Como portadora de transtorno bipolar, não concordo com os argumentos de Lígia.

Lu S. G. disse...

Olá, eu gostei muito do teu blog! Estou seguindo ele.
Aliás, adorei esta postagem.
Eu também tenho um blog que aborda assuntos ligados ao Transtorno Bipolar do Humor, é http://luzdomar.blogspot.com/
Um abraço,
Lu.