Grupo da UnB auxilia pessoas que sofrem com o transtorno afetivo bipolar


Quando o então presidente em exercício, Ulysses Guimarães, desceu a rampa do Palácio do Planalto margeada por dezenas de Dragões da Independência, em uma manhã de 1987, e resolveu apertar a mão dos soldados, um por um, os assessores logo perceberam que o deputado estava entrando em um novo surto de euforia. Eles sabiam também que, mais tarde, quando se trancasse no gabinete para despachar, teria mais uma crise de depressão.
  A alternância dos dois tipos de comportamento, observada nesse que foi um dos políticos mais expressivos do país, caracteriza o que hoje a psiquiatria chama de transtorno afetivo bipolar (TB). O problema já foi conhecido como psicose maníaco-depressiva, termo banido dos manuais médicos por conter um grave equívoco: o paciente bipolar não tem psicose. Ulysses Guimarães era uma prova disso, assim como outras pessoas, famosas ou não, que convivem com o transtorno e levam uma vida normal.
                                                                     Antônio Carlos Firmino

 Em Brasília, um grupo de portadores de TB, familiares, profissionais de saúde, parentes e amigos mostra que é possível conduzir a vida em sintonia com a superação, a partir do controle dos surtos — por meio de terapias, medicações e troca de experiência. O Apta (sigla para Associação de Pacientes de Transtornos Afetivos) é um grupo de acolhimento que funciona na Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) uma vez por semana e é baseado no princípio da solidariedade. “Trata-se de um espaço onde as pessoas podem compartilhar seus problemas”, resume a psiquiatra Maria das Graças de Oliveira, uma das fundadoras da entidade.
“No grupo, o que importa é a troca de experiências. Ninguém é obrigado a participar, as pessoas vão às reuniões se quiserem. A ideia é não dar conselhos, mas aprender a ouvir”, explica a professora da UnB. O Apta foi fundado em 2009, por sugestão de um dos membros do grupo, o economista Antônio Carlos Firmino, 64 anos, servidor do Ministério dos Transportes que trouxe para Brasília um modelo existente em São Paulo — a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata).
Segundo Firmino, o bipolar precisa sempre de uma referência, um ponto de apoio além dos remédios e das terapias. “Ouvir faz bem, muito mais do que falar, e a companhia das pessoas é muito importante. Do grupo, levamos um aprendizado para a sociedade, que ainda nos discrimina.” De acordo com ele, o convívio social é tão fundamental quanto seguir as orientações médicas e fazer terapia.
“Nossas vidas serão assim por todo o tempo, mas não quer dizer que somos limitados. Mas temos de tomar cuidado com as crises e procurar sempre a ajuda de um médico. Eu, de minha parte, aprendi a pressentir quando vou entrar em depressão”, ensina o homem que um dia, em um dos surtos de euforia, comprou um casal de coelhos na rua, com 12 filhotes, e deu à mulher de presente. Foi o bastante para mais um momento doméstico conturbado.

Em outro momento de crise, Firmino, que foi aluno na USP do ex-ministro do Planejamento João Sayad, interrompeu a aula para questionar os argumentos do professor. Na mesma batida, o ex-presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, também professor de economia da USP, foi vítima da desenvoltura excessiva do aluno: “Chamei ele de símio, bem alto, na frente de todo mundo, sem motivo algum”, lembra, rindo. Depois da aula, Eris e Firmino conversaram sobre outras coisas e ficaram amigos.

Ignorância e estigma

A presença da promotora de Justiça Lúcia Helena Barbosa de Oliveira nas reuniões semanais do Apta e nos encontros psicoeducativos, bimestrais, é uma prova do perfil eclético do grupo de acolhimento. Ela não é bipolar, mas se tornou uma referência entre os frequentadores e profissionais da saúde em termos de apoio, diálogo, solidariedade e participação ativa nos debates sobre a estruturação da entidade. Doutora com tese em direito do consumidor sobre resolução de conflitos judiciais, Lúcia diz que se inspirou em uma agenda feminista e em princípios humanistas em que “o outro seja sempre o centro do diálogo”.
Lúcia Helena afirma que, embora da área jurídica, a sua tese tem tudo a ver com a filosofia do Apta. “Partimos do princípio de que o olhar do outro pode adoecer e pode ser curativo.” Sobre o Apta, a promotora analisa que o grupo é uma alternativa de encontro fundamental para os bipolares. “Além das medicações e das terapias, vemos o grupo como a terceira via de apoio psicossocial, e isso é imprescindível.” A promotora conheceu o Apta no ano de sua fundação, ao levar ao grupo uma amiga que tem o transtorno. “Mas ela desistiu e eu continuei”, afirma, sorrindo.

De acordo com a psiquiatra Maria das Graças, um dos objetivos da instituição é combater a ignorância, “que é prima do preconceito”, e levar conhecimento à sociedade sobre o TB. “Queremos desmistificar essa aura dramática da bipolaridade e mostrar que esses transtornos têm tratamento.” Segundo a psiquiatra, o transtorno bipolar é o preço que alguns pagam por se tornarem criativos (leia mais nesta página). “Temos gente brilhante no grupo, de alto valor ético. São pessoas muito especiais que sofrem com o preconceito da sociedade”, destaca a médica.
Para Antônio Carlos Firmino, que foi peça fundamental na elaboração da atual Lei dos Portos, o bipolar é muito sensível e tem a desvantagem de ter a maioria das crises em público. “Não tem jeito, se não tratar, se não aprender a pressentir as crises de depressão ou de mania, o indivíduo estará exposto, perde o senso do ridículo e do perigo e põe a vida dele e a dos outros em risco. Mas isso não significa que não se possa, com ajuda, levar uma vida normal”, ensina o economista, que se sente feliz por ter encerrado, com terapias e medicamentos, o ciclo de surtos de euforia e de mania. “Tenho uma depressão leve, e logo que a pressinto, corro para o médico.”
Lúcia Helena não sofre com o transtorno, mas participa das reuniões do Apta: combate ao preconceito


                                                        Lúcia Helena
Fator hereditário

O transtorno afetivo bipolar é caracterizado por alterações de humor que se manifestam como episódios depressivos alternando-se com episódios de euforia (também denominados de mania), em diversos graus de intensidade. Pesquisas indicam que pelo menos 1% da população mundial apresenta o distúrbio. Outros estudos mostram que a participação genética no desenvolvimento da doença varia numa faixa de 70% a 80%. Uma morte, uma perda importante sentimental ou um acidente, entre outros episódios, podem ser os gatilhos do TB.

Carine Tavares

Correio Brasiliense  Publicação: 13/12/2011


Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2011/12/13/interna_ciencia_saude,282626/grupo-da-unb-auxilia-pessoas-que-sofrem-com-o-transtorno-afetivo-bipolar.shtml

2 comentários:

Will Brasil disse...

Oi, você já respondeu?

Bipolares do Brasil 2012, um projeto que você tem que participar! Essa é a primeira pesquisa nacional para levantamento do número de bipolares no Brasil. Sua participação é fundamental.
Ajude a divulgar o projeto, junto a amigos e familiares, pode ser que existam pacientes entre seus amigos, e essa informação pode ser muito útil!

O link para pesquisa pode ser encontrado na página do site http://www.bipolarbrasil.net

Muito grato!

Will Brasil - Estou certo do seu apoio nessa...

FABIANO 66078 disse...

sr ANTONIO CARLOS FIRMINO,meu nome é JOÃO MAURICIO RETEK,o sr quando eramos meninos e moravamos em SP no alto da lapa,me chamava pelo nome de joãozinho,fomos criados juntos,até que o sr foi para o colégio de padres,queria ser padre,e eu fui para a FORÇA AÉREA,encontramo-nos novamente quando o sr ja estava para ser formado padre,ai rsrsrs eu acho que o desviei da idéia de ser sacerdote,desculpe-me se fui culpado por isso,depois não mais nos vimos,o sr foi trabalhar em BRASILIA no ministério dos transportes e jamais tive noticias do sr,mas tentei enviar uma mensagem pelo face book,mas fui bloqueado,sei que o sr é imporatnte e eu nada sou,mas minhas lembranças de infancia incluem seu nome,carlinhos,seu pai um grande ser humano,sr Antonio Firmino,sua mãe dona Albertina,minha madrinha de casamento,sempre lembro de todos voces com muito carinho,estou feliz por saber que esta bem e com saude,um grande abraço do jãozinho