Gravidez e Transtorno Bipolar



A gravidez é um período de mudanças emocionais bastante conhecido, que não só afeta o curso das doenças afetivas prévias, como por exemplo o Transtorno Bipolar, senão que também influi sobre a opção terapêutica escolhida. Diminuir os riscos das conseqüências de exposição do feto aos fármacos, bem como diminuir os riscos de una doença psiquiátrica materna deve ser o objetivo principal do tratamento psiquiátrico da gestante.

Os distúrbios emocionais que ocorrem durante a gravidez ou puerpério (pós-parto) podem aparecer como uma primeira manifestação psiquiátrica ou, como parece ser mais freqüente, como agravamento ou recaída de alguns transtornos emocionais prévios. Independente da origem, a ocorrência de distúrbios psiquiátricos durante este período pode ter implicações muito profundas, não só para a saúde mental da mãe, mas, sobretudo, para seu relacionamento com a criança e com outros membros da família. Também se constatam sérios prejuízos no desenvolvimento dos filhos de mães emocionalmente problemáticas.

Tendo em mente que a gravidez é um período bastante perigoso para mulheres com Transtorno Depressivo Recorrente e para sua família, é importante determinar o risco dos vários tratamentos para tais transtornos. O acompanhamento pré-natal é onde pode haver melhor oportunidade para detectar pacientes de risco emocional, bem como oferece melhores condições de tratamento e prevenção (Stocky, 2000).

Os números de pacientes tratados para transtornos do humor têm sido cada vez mais crescentes. Uma grande proporção destes pacientes, particularmente com o diagnóstico da depressão maior (ou grave), são mulheres grávidas (Gold, 1999).
No período do pós-parto, as mulheres com Transtorno Afetivo Bipolar apresentam um risco excepcionalmente elevado para manifestação de crises; sejam de euforia (mania), de depressão ou de ambas. Nesse último caso, quando a ocorrência de ambas formas de crises (maníacas e depressivas) for quase simultânea, falamos em pacientes rápidos cicladores.

Nas crises de depressão ou de euforia graves, as pacientes podem desenvolver um quadro com sintomas psicóticos e, desta feita, comprometer profundamente seu relacionamento com o bebê, não raramente colocando em risco a segurança dele.

Um dos desafios clínicos principais nas mulheres com Transtorno Afetivo Bipolar (antiga PMD), é o manejo clínico dos casos que apresentam ciclos rápidos (euforia e depressão). O tratamento deve ser conduzido durante a gravidez e a continuar do tratamento no período pós-parto. Entre pacientes com Transtorno Afetivo Bipolar com características de rápidas cicladoras, o tratamento da depressão é particularmente problemático.

A dificuldade do tratamento do Transtorno Afetivo Bipolar está no fato dos antidepressivos, normalmente empregados nas crises de depressão, poderem facilmente precipitar crises de mania nos pacientes considerados rápido cicladores (Leibenluft, 2000). Os estabilizadores do humor mais prescritos para essa finalidade têm, geralmente, efeitos antimaníacos mais potentes do que efeitos antidepressivos, mas devem ser usados com a máxima cautela durante a gravidez.

Opções

Diante de qualquer situação que envolva tratamento à gestante, as decisões devem sempre ser tomadas pela paciente e pelos familiares, depois de receberem toda informação sobre as conseqüências da doença psíquica sem tratamento e dos eventuais efeitos dos fármacos sobre o feto.

1. Quando se opta por concepção planejada.

a) Em mulheres com poucos e isolados episódios de moderada severidade ou naquelas com Transtorno Bipolar Tipo II (onde prevalecem episódios de euforia), devemos ir retirando a medicação progressivamente (Alexis, 1998; Adele, 2000).
Nunca o tratamento deve ser interrompido de forma brusca devido ao aumento do risco de recaídas. Caso a paciente toma lítio, este deve ser retirado em 3-5 dias depois do teste de gravidez positivo.

b) Em casos de Transtorno Bipolar com episódios graves ou em casos de pacientes rápidas cicladoras, deve manter-se a medicação com as mínimas doses efetivas. Quando possível, devemos optar pela monoterapia (um só medicamento).
Nas pacientes que utilizam estabilizadores do humor deve realizar-se ecografias a cada 16-18 semanas para avaliar o desenvolvimento do coração e da coluna do feto. Além disso, devem ser monitorados os níveis de medicação a cada mês e medidos os eletrólitos no sangue, bem como os hormônios tireoideanos.

2. Quando a concepção não foi planejada.

Quando se decide interromper a medicação, é bom evitar fazê-la de forma brusca. Deve suspender o tratamento em 3-5 dias para evitar recaídas. O índice de recaídas nos 6 meses depois da interrupção do lítio é em torno de 50%. Entretanto, o lítio poderá ser reintroduzido no último trimestre da gravidez (Lee, 1998).

A decisão de se interromper ou não a medicação deve levar em conta a historia clínica da paciente, bem como valorizar o risco/benefício da suspensão do tratamento. As conseqüências de uma recaída podem promover uma acentuada diminuição dos cuidados pessoais, um abandono do pré-natal e acompanhamento médico da gravidez, impulsividade e consumo de álcool e tóxico, suicídio, etc.

Para usarmos psicofármacos durante a gravidez, devemos levar-se em conta quando o risco do abandono da medicação supera os riscos que apresenta o feto pela exposição aos fármacos. De qualquer forma, os psicofármacos devem ser evitados durante o primeiro trimestre. Nos casos de Transtornos Afetivos neste período, a ECT o método mais indicado.

Ainda assim, nenhuma decisão está livre de riscos. Um plano individualizado de tratamento diminuirá esses riscos, tanto para a mãe como para o feto. Neste plano deve se incluir a necessidade ou não de internação hospitalar nos caso da paciente se encontrar gravemente doente.

Quando a paciente está em uso de estabilizadores do humor (carbonato de lítio, carbamazepina, valproato ou divalproato), devemos aconselhar sobre o uso de algum método anticoncepcional. Os pais devem ainda ser aconselhados sobre os riscos genéticos dos transtornos emocionais e, principalmente, sobre o alto risco de recaída de transtornos emocionais durante a gravidez e no período pós-parto.

Interromper o lítio durante a gravidez pode ser a regra, porém, pode-se continuar o tratamento com outros estabilizadores em doses baixas. O lítio, entretanto, deve reintroduzido imediatamente depois do parto. Neste caso, se desaconselha terminantemente a amamentação. A amamentação será possível no caso de um tratamento estabilizador alternativo ao lítio.


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9 comentários:

Anônimo disse...

Esta postagem veio no momento certo. Há uma semana descobri que estou grávida. Como foi planejada, fiz o beta assim que desconfiei, no 1o dia de atraso e retirei o litio em 3 dias por orientação da psiquiatra (estou eutímica desde março).Estava planejando a retirada do litio para fazer uma fertilização in vitro até o fim do ano, mas o bebê veio antes de forma natural, como um milagre (tínhamos infertilidade sem causa aparente). O obstetra me tranquilizou e disse que por eu ter feito o beta rapidamente, teríamos tempo de retirar o lítio diminuindo o risco para o bebê. Mantivemos apenas a sertralina (25mg). Optei por não usar outras medicações durante a gravidez, e quero amamentar (vou me esforçar pra isso). Faço tratamentos complementares, exercicios físicos e tenho uma alimentação bem equilibrada. Parei de trabalhar para planejar a gravidez sem lítio, porque o que desencadeia crises no meu caso é o estresse. Estou bem confiante e na proxima semana consultarei um psiq. especialista em TB, para me acompanhar nesta jornada. Espero que meu depoimento dê esperanças para quem pretende ser mãe. Qdo fui diagnosticada, há um ano atrás, o fato de saber que teria dificuldades para ser mãe por conta da medicação piorou meu quadro. Mas hoje estou aqui, gestante! ;) Com muita responsabilidade e planejamento a gente pode realizar sonhos.:) :)

Mente inquieta disse...

Parabéns pra vc futura mamãe!
Fico feliz com a realização do seu sonho é também de ler o seu depoimento. É importante mostrar para as pessoas que é possível sim ser mãe sendo bipolar, basta se planejar e ter o acompanhamento do seu medico! Abraços

Anônimo disse...

Oi pessoal,

sou a gestante que escreveu a mensagem anterior. Achei que seria responsável da minha parte escrever sobre os desdobramentos pós-consulta com o especialista.Foi muito importante e esclarecedor. Vou permanecer sem o uso de lítio mas com acompanhamento regular com a psicóloga e com a psiquiatra que já me acompanhava. Caso tenha algum tipo de instabilidade (meu marido foi orientado pelo médico a acompanhar e perceber isso), usarei duas gotas de Haldol (eu e minha médica temos confiança que não será preciso). Continuarei sem trabalhar durante toda a gestação e a gravidez é considerada de risco pelos cuidados que exige. Sobre amamentação fui orientada a não programar ainda para não gerar ansiedade, quando estiver mais avançada na gestação iremos avaliar a possibilidade. Continuo com a alimentação equilibrada, o reiki e os exercício físicos (apenas troquei de modalidade por conta de gestação) e os 25 mg de sertralina. Estou há um mês sem o lítio e por enquanto me sinto bem. Espero que meu relato seja útil para outras bipolares que queiram ser mães. Beijos a todos!

Anônimo disse...

Sempre quis ser mãe. Pensei em desistir algumas vezes, já que o sofrimento causado não afeta somente a mim, mas a terceiros. Tinha medo de enfrentar meu problema e criar uma cópia ao mesmo tempo, ou seja, ver o filme passar duas vezes. Mas considerei egoísmo da minha parte, já que encaro a bipolaridade tanto como uma dádiva e maldição, se vive entre o céu é o inferno. Depois, a vida é uma só e quero é tenho o direito de realizar esse sonho, até porque, embora os altos e baixos, tenho certeza de que serei boa mãe. O fato é que, estou sem tratamento desde março de 2015, quando resolvi tentar engravidar e me desintoxiquei dos remédios por conta própria. Digo isso, pelo excesso de medicamentos que tomava e a dependência de alguns deles. Felizmente, estava tudo bom demais até dezembro passado, quando comecei a entrar em surto e a gota d'Água aconteceu no ano novo, pior não poderia ter sido. Estava viajando, se estivesse na cidade onde moro, com certeza teria conseguido internacao. Estou vivendo um episódio depressivo, vou retomar o tratamento psicológico, mas não pretendo retomar a medicação, ao menos, até o parto. Claro que ainda nem estou grávida, confesso que sinto medo pela montanha-russa que seguirá por um tempo, mas estou foçada no meu objetivo maior. Sei dos riscos de ficar sem medicação, mas temo também pelas medicações adotadas. O que será pior, medicacao ou o stress que a criança sofrerá através da mãe? Preciso de uma luz, por favor! Fico agradecida desde já. Abraços a todos e sucesso nessa jornada!

Mente inquieta disse...

Anônima,

Existem já remédios que pode tomar na gestação.
O Ideal é que a mãe fique sem remédios na gestação, mas ha casos de mães que não conseguem, isso depende do tipo da bipolaridade, do grau de estresse que tem a vida da mãe, de uma série de cuidados e circunstancias. O medico avalia toda a sua situação para decidir se retira a medicação. Se for o caso de ter alguma medicação, já existem remédios que podem ser tomados na gestação. Consulte um psiquiatra para ver qual é o melhor solução pro seu caso. Abraços

Anônimo disse...

Olá tb tenho TAB e estou tentando engravidar já faz um tempo. Tive que trocar a medicação e mudar meus hábitos. Estou tomando seroquel 50MG, faço atividade física e meditaçao. Essa última tem sido o maior aprendizado e a melhor forma de lidar com a doença, pois o autoconhecimento e a mudança na autopercepção tem sido imensos pra mim. Sou uma pessoa muito melhor e posso dizer que sou outra depois que iniciei a Meditaçao com práticas de mindfulness. Estou passando por um momento difícil no qual estamos tentando engravidar, fizemos uma fertilização sem sucesso. Nossa! Estou passando por toda essa frustração com um mínimo de medicação e estou segurando a onda. Brinco que estou orgulhosa de mim. Bom, enfim, quero estar bem para receber o meu filho, quero ser uma pessoa melhor para ele. Estou tentando...se quando chegar a hora não conseguir ficar sem a medicação, sei que fiz o meu melhor e quero estar no "meu centro", principalmente, para curtir cada segundo ao seu lado! Então se precisar tomar algo durante a gravidez para ficar bem, faça isso! Vamos nos cuidar para depois cuidar dos nossos pequenos! Afinal, é disso que eles precisarão! Bjs e se cuida

Anônimo disse...

Olá tenho 32 anos comecei o tratamento com 22 que foi quando descobri que era bipolar por causa de uma crise forte que tive e quase me levou a morte por uma tentativa de suicídio. Fiz o tratamento certinho durante alguns anos e acabei parando.faz mais ou menos 3 anos que parei o tratamento e descobri que estou grávida de 2 meses.isso pode ter problemas graves para o bebê? Já agendei a consulta com o psiquiatra pois nao ando muito bem.
Obrigado.

Mente inquieta disse...

Olá anônima. É isso que vc deve fazer procurar um psiquiatra o quanto antes.
Vc disse q a mais ou menos três anos parou o tratamento e depois engravidou?
Então quando vc engravidou vc estava sem medicação?
É melhor pro bebe está sem medicação, tanto que a grande maioria dos médicos retiram
A medicação na gestação. Mas, há casos que se apresentar desequilíbrios então o médico pode introduzir alguma medicação, há medicação que não prejudicam o bebê.
De qualquer forma vc tem que ir no Pisiquiatra e conversar toda a situação com ele. Abraços

Elisangela Eli disse...

Faço votos que tudo tenha dado certo. E esteja dando. Vc me animou. Pois sou bipolar, tomo litio, porém, sonho em ser mãe. Obrigada por seu depoimento.