Relato de um Bipolar

"Olá!
Adorei teu blog e me identifiquei com várias coisas nele.
Fiquei tentado a te dar meu relato.
Tenho 25 hoje, fui diagnosticado no final de 2014, sofri com depressões a vida inteira. Foi muito dolorido.
Minha primeira vez com um psiquiatra foi aos 18, após um surto psicótico e um haldol intravenoso apresentei alergia aos componentes (sintomas extrapiramidais). Fiquei na UTI 3 dias por causa desses efeitos e até hoje, meu corpo não suporta antipsicóticos.

Voltando, tomei citalopram por dois anos e parei por conta própria, pela primeira vez na vida as coisas fizeram sentido na minha vida. Aprender foi fácil, as coisas fluíam simplesmente. Sofri demais com problemas de aprendizado em algumas áreas (matemática foi impossível), enfim, comecei a viver após ter a adolescência "perdida".

Após quatro anos, depois de formado, casado, trabalhando e com filho, talvez a carga emocional fosse grande o suficiente para que as brigas no trânsito, as vezes que esfolei a testa na parede de tanto bater a cabeça por causa de raiva comigo mesmo, ou o TOC de ficar arrancando pele do umbigo (todas essas coisas "gerenciáveis"), apareceu um novo sintoma: independentemente da hora ou razão, as pessoas ao meu redor eram todas imaginadas como morrendo, atropeladas, acidentes grotescos. A morte sempre presente, mesmo sem depressão, a meu ver.

Voltei em 2014 à mesma psiquiatra que me "curou" quando do fim da adolescência e voltei ao bom e velho citalopram. Foi então que surgiram os problemas de sono, demorava mais para dormir, acordava mais durante a madrugada, a ansiedade em níveis estratosféricos e a idealização da morte andando sempre de mãos dadas com meu ego. 

Até que em outubro de 2014, após um episódio de briga no trânsito no mesmo momento que eu estava claramente eufórico fez com que minha mulher fosse comigo à psiquiatra. E assim comecei a tomar lítio, foi um susto grande.
Antes do lítio dar seu primeiro "kick-in", tomando a dose mais baixa prescrita, veio meu primeiro episódio maníaco/hipomaníaco/eufórico. Durou uma semana e pouco. Nunca tive uma libido tão poderosa, era um monstrinho sexual. Tudo era novo e alegre, eu tinha energia, força. Até que num determinado momento eu era um demônio e decepei meu braço, fazendo pequenos cortes apenas para ver o sangue escorrer. Por que, afinal, qual demônio não é vermelho?
Voltei ao "normal" em dezembro. Foi um ótimo final de ano, muito amável e em família. Enquanto isso, eu e minha psiquiatra continuamos tentando o lítio + o citalopram, que nesse ponto era considerado uma pequena faca de dois gumes por me ajudar com a ansiedade extrema, mas me deixando propício a outro episódio. 

2015 trouxe muitas coisas novas, e até velhas, como as imagens de pessoas morrendo, o transtorno pronto pra dar outra guinada, comigo tentando calcular a velocidade que deveria bater o carro num poste para morrer sem sentir mais dor do que já sentia por dentro enquanto esse mesmo pensamento trazia a maior euforia e desejo de viver.

Minha psiquiatra decidiu que era hora de remover o citalopram e adicionar o aripiprazol. Eu juro que tentei durante duas semanas, tomando akineton pra controlar os efeitos extrapiramidais. Não adiantou, foi quando contei a meu superior sobre a doença. Ele foi extremamente receptivo e eu agradeço a ele pelos dias que tive de sair mais cedo, pois não parava de tremer.
Esses dias bateram com o começo das minhas férias. Foi uma semana perdida batendo a cabeça em ponta de faca com o medicamento, outra pra ficar livre dos sintomas extrapiramidais. E na terceira semana a hipomania batendo à porta.

Foi quando o lítio ganhou o companheiro que está até hoje, chamado divalproato de sódio. E foi em duas semanas após tomando os dois medicamentos religiosamente que eu percebi que os medicamentos não fazem eu ser uma pessoa diferente. Minha criatividade aflorou, minhas emoções (e a intensidade delas) são as mesmas. Porém sou eu. Adicionado de 3 segundos de funcionamento pleno do cérebro antes de fazer qualquer coisa, como chamar alguém pra uma briga ou comprar algo que vá bagunçar todas as contas do mês em casa.
Eu nunca tinha sido Eu."


                                                 Renan

8 comentários:

Anônimo disse...

Como vc esta hoje?

Unknown disse...

Olá eu sou a Karla e sofri muito desde de pequena com abusos e etc... Já tentei me matar jogando álcool em mim e hoje procurei ajuda e o remédio lítio está fazendo muito bem pra mim

Anônimo disse...

Emocionante testemunho!
Como são dificeis receber esses diagnósticos.
Há quase três anos faço tratamento de depressão mais bipolaridade...juro não aguento mais tantas medicações sem funcionar. São crises e mais crises e a sensação de uma parte da vida jogada fora, eu tenho a impressão que vivi até os meus 29 anos. Amo os meus psiquíatras, mas os farmácos são drogas, que só me deixaram depressiva, porquê essa sensação de estado vegetativo, me correi.
Estou procurando métodos alternstivos, tais como: yoga, acunputura, homeopatia e claro agregado a terapia. Força e fé em Deus!
É muito sofrido olhar a discriminação da sociedade e a falta de conhecimento. Olhar o sofrimento e desispero de quem te ama, nunca imaginei uma doença tão horrível!!!
Não vou desanimar, estou há mais de 15 dias sem a medicação...momentos horrorosos, mas vou conseguir.

Anônimo disse...

Aguenta firme aí todo mundo e vamos tomando nossos medicamentos e trocando se necessario enfim vamos fazer o melhor por nós

Anônimo disse...

sinto falta de um grupo no whatsapp. as vezes é bom conversar com alguem. parei de tomar a medicação. nao to muito bem.

Anônimo disse...

Não parem nunca a medicação sempre será pior, conversem com quem está próximo e pode auxiliar e não abandonem nunca o psiquiatra, a terapia também é fundamental para aprender a se conhecer e aceitar - se.

Luciana Pereira disse...

Bom dia estou montando um grupo no Zap quem tiver interece e so add (83)9987704396

Anônimo disse...

Oi boa tarde. Gostei muito do blog e do relato desse jovem. Estamos atualmente vivendo um momento um tanto angustiante. Minha irmã teve a alguns dias um surto e continua internada e ainda um pouco desorientada,falando algumas coisas que disse durante o surto. O meu pedido de auxílio é:Como nós família e amigos devemos fazer pra ajudar na recuperação do surto? Como devemos proceder com o paciente? E já sei que cada caso é um caso,mas quanto tempo em media demora pra que o paciente recobre a consciência no sentido de voltar para a realidade?! Espero que alguém possa me dar uma luz. Obrigada!! Fé em Deus sempre!!!