Um pouco da minha história


Saudações a todos

Meu nome é Juracy e lendo as histórias postados nesse blog, me veio o desejo de compartilhar com os amigos meus pedações ou cacos que estou ainda recolhendo, a despeito de ter sido diagnosticado há mais de cinco anos com o transtorno.

Negro, de família muito simples, pais iletrados, fui educado na periferia de Vitória, no Estado do Espírito Santo, comecei a carreira profissional limpando prateleiras em supermercados, quando aos 17 anos decidi me casar. Sem concluir o ensino médio, vivendo uma vida bastante difícil, resolvi retomar os estudos. 

Com a ajuda de amigos nos empréstimos de livros e compreensão de algumas matérias, consegui concluir o segundo grau, como era chamado à época. Visando melhorar a renda, submeti ao concurso público para soldado da polícia militar, quando fui aprovado e exerci a atividade policial por dois anos, pois percebi que caso continuasse os estudos poderia alcançar outras possibilidades.

Em 1990 fui aprovado no concurso da Justiça Federal do Estado do Rio de Janeiro, onde trabalhei por 04 anos e depois fui removido para a Justiça Federal do Espírito Santo.

Em 1994, ingressei na Universidade Federal do Espírito Santo, no curso de direito, tendo concluído em 1999. 

Casado, com três filhos, bem sucedido no serviço público, pois passei a exercer cargos importantes na Justiça Federal, como supervisor e depois diretor de secretaria do juízo, retornei a me dedicar novamente aos estudos.

Em 2004 fui aprovado em quarto lugar no concurso de Juiz de Direito do Estado de Rondônia. No mesmo ano, fui aprovado no concurso de Juiz de Direito do Estado do Espírito Santo. 

Iniciei a judicatura no interior do Estado, bem como na docência do ensino superior. Após 4 anos de muito trabalho e dedicação, já que a função se tornou mais importante do que minha própria vida e minha família, começou a surgiu um comportamento de descontrole. Começou pela perda do sono, depois veio a hipersexualidade, e por fim a compulsividade para compras. Comecei a me envolver com qualquer tipo de pessoa. A mesma comarca, onde os jurisdicionados me considerava um magistrado brilhante, começaram a me recomendar a corregedoria, pois não havia limites no meu comportamento. Perdi completamente o controle social e a percepção da realidade. Perdi minha identidade. A situação ficou tão grave que não resisti a uma tentativa de suicídio. Quando notei que havia alguma coisa de errado, procurei uma psicóloga. Foram vários meses tentando descobrir o que estava acontecendo. Os medicamentos receitados somente pioravam a situação e em 2009 fui diagnosticado com o TAB. O mundo caiu pra mim.

Recusei aceitar o diagnóstico, mas a desorganização social era tamanha que não havia margem de dúvida sobre a veracidade do laudo. Iniciei o tratamento, mas já era tarde, o lastro condutal impedia continuar a atividade jurisdicional.

Foi inevitável a apuração de processo administrativo disciplinar. Antes de sua conclusão, fui aposentado por invalidez, em decorrência do transtorno.

Me submeti ao tratamento, com muita responsabilidade, pois o desarranjo social foi muito grave.Consegui me estabilizar um ano depois do diagnóstico.

Após o período de estabilização, fiz duas especialização e um mestrado.

Fui ordenado a uma função eclesiástica (a fé me fez sobreviver a tudo isso).

Nesse período fui reparando os danos passíveis de acertos, como as dívidas contraídas. Mas não escapei do preconceito.

Luto com o estigma, o Tribunal de Justiça não reconhece que uma pessoa em meio a um surto psicótico é capaz de fazer tantas ocorrências sem inibição social.

Estou estabilizado há 5 anos, mas ainda não consigo lidar com os conflitos internos da tristeza, da angústia e da dor.

Apesar de ter preservada minha capacidade laborativa, não posso trabalhar por força de incompreensão sobre a doença; Meus pares não aceitam que o transtorno é capaz de trazer tantos danos sociais a seu portador. e se recusam a debater o assunto, enquanto luto para provar o que aconteceu à época. Fiz diversas perícias com médicos renomados no Brasil sobre o TAB.

A todo tempo, o sentimento de desistência toma conta da minha alma. Mas, no que pese a força desse sentimento, curvo-me a pensar nas outras pessoas que sofrem do mesmo dilema. Se não lutarmos, o estigma continuará sendo um fantasma invencível. 

Fui exposto na mídia, além de impor intenso sofrimento a minha família, já que os fatos não foram poupados. No entanto, ainda estou resistindo, com apoio de poucos.    

Por fim, creio que a maior superação está no fato de não precisarmos do anonimato. Temos que nos mostrar, temos um transtorno, que não reivindicamos, mas ocorreu como fato da vida, como acontece com a pessoa cardíaca, diabética etc... Precisamos nos unir em torno da informação, da aprovação do crime de "psicofobia" (preconceito a qualquer tipo de transtorno), cujo projeto de lei está em curso no senado federal.

Tenho 47 anos de idade, 30 anos de casado, três filhos, e sou bipolar. Conquanto tenho uma mente inquieta, acredito que temos o direito de sermos respeitados nas nossas diferenças, bem como de não sermos etiquetados.

Juracy Jose da Silva 

29 comentários:

Amanda disse...

Agradeço muito seu depoimento. Tenho vivido momentos de angústia por não saber o que fazer. Vivo um anonimato, sou respeitada, mas me custa muito caro. Além de toda a energia gasta em não mostrar quem sou, não tenho ajuda, pois não grito por socorro. Por outro lado, receio sofrer preconceito, ter minha fé questionada e não ser vista mais como uma profissional séria. Parabéns pela perseverança, só quem convive com isso sabe como é.

Anônimo disse...

Olá Juracy - como você se estabilizou?
Está em uso do Lítio? Poderia nos falar das suas tentativas terapeuticas?
Tenho 43 anos e 24 anos de crises graves de Depressão bipolar intercaladas por períodos de hipomania.
Várias e várias tentativas medicamentosas e até hoje sem sucesso em relação à estabilidade. Períodos de remissao se os tenho são curtíssimos.
Com isso o transtorno me levou quase tudo. Auto-confiança, auto-estima, trabalho, saúde e trouxe-me dívidas, doenças, medo, vergonha, angústia e perdas imensas em todas as áreas da minha vida. Os sentimentos após essas decadas é de impotência e derrota.
Sinto que minhas funções cognitivas foram comprometidas.

Luciana Pereira disse...

Ola antonio fiz um grupo pelo Zap so pra quem tem transtorno bipolar se quiser participar so add (83)987704396

Anônimo disse...

Oi Amanda, que triste você se sentir assim. Realmente há preconceito em torno de vários tipos de doença e teu momento é compreensível, mas você já pensou em conversar com os profissionais que tem acompanham sobre isso? Quem sabe eles possam te passar uma visão mais positiva sobre tua situação. Não tenha vergonha de pedir ajuda. Quem sabe o teu sofrimento seja maior por isso, do que pelo TAB em si. Não encare o TAB como uma maldição ou um atestado de incapacidade para o resto da vida. Encare como um jeito de ser diferente do que a sociedade considera padrão e também como uma oportunidade de auto conhecimento. Buscar ajuda é o começo da lucidez. Hoje temos acesso a muitos tipos de tratamentos, a profissionais com competencia e conhecimento e pode-se ter uma vida estável, como se tem com outras doenças. Se preserve nos momentos que considerar necessário, mas não tenha vergonha, não se esconda. Verás que tem muita gente que gosta de você e te respeita do jeito que você é. Quanto ao preconceito, essa é uma doença muito, mas muito pior do que o TAB e reflete a ignorancia das pessoas. Muitos não tem acesso a informação e mostram a falta de informação da sociedade em geral. Mas em meios profissionais de pessoas esclarecidas e com bons níveis intelectuais, quem usa do fato de alguem ter um problema de saúde para fazer chacotas, discriminar ou mesmo prejudicar profissionalmente é IGNORANTE, PERVERSO e muito, mas muito mais "doente" que qualquer pessoa com TAB, esquizofrenia, depressão, etc....E é passível de processo por discriminação e danos morais. E que triste, pra estas pessoas não tem DSM, nem medicamento, nem psicoterapia que dê conta. Você pode informar, esclarecer as pessoas próximas, mas realmente não se está livre da MALDADE alheia (que pena, pra isso não há remédio, é bem mais triste a situação desse tipo de pessoa não acha?), e isso sim, é preciso aprender a lidar com a ajuda dos profissionais e dos que nos querem bem. Deixe os ignorantes pra lá, se você é uma profissional séria, continuará sendo, continuará tendo fé, continuará sendo você. O diagnóstico é somente uma parte da tua vida. Quando sentir que é o momento, saia da casca, é descobrirá que pessoas preconceituosas e maldosas são minoria, e tão, mas tão pequenas que não vale a pena gastar um centavo de preocupação com elas. Despreze e vá em frente.Não estou dizendo que é fácil (não é!), mas por isso pedir ajuda na psicoterapia e o apoio das pessoas com as quais se sente bem é fundamental. Abraços, fique bem :)

Juracy Silva disse...

Olá pessoal!

Tenho que o anonimato nos enfraquece. Quando decidi assumir publicamente ser portador do transtorno, percebi o quanto isso foi importante para mim. Percebi, ainda, que nós somos muitas vezes responsáveis pelo estigma, pois precisamos nos mostrar e demonstrar nossa capacidade de lidar com o problema, administrá-lo e poder viver uma vida normal. As pessoas precisam conhecer a doença e ter respeito pelos seus portadores. Luto em prol disso. Já sofri o suficiente sozinho e escondido achando que minha doença era contagiosa ou me fazia inferior. Jamais podemos deixar isso acontecer. Os medicamentos são muitos eficazes e o transtorno não nos incapacita para o trabalho. Precisamos de unidade e de nos organizar em prol da informação e do respeito. att.

Luciana Pereira disse...

Olá, queridos!!!
Existe um grupo bacaníssimo de interação entre nós, bipolares, no WhatsApp! Dividir experiências, ter forças, conhecer semelhantes. É incrível!
Quem quiser, mande mensagem para a Luciana [(83)987704396] e nos vemos lá!

Atenção: no grupo só serão aceitas pessoas com diagnóstico de bipolaridade.

Mente inquieta disse...

Concordo com vc Juracy.

Patrícia Santos disse...

Muito obrigada pelo depoimento incrível! Penso como você, que devemos aparecer e que isso além de melhorar nossa auto-estima ajuda a muita gente. Tenho emprego público federal e fui afastada por 6 meses no ano passado. Sou mal-vista pelos atrasos e faltas decorrentes da doença e faço questão de não "conseguir" atestado médico nos dias em que realmente não consigo sair de casa ou falar ao telefone.
Há um mês comecei tratamento para bipolaridade porque antes fui diagnosticada como depressiva e o tratamento piorava tudo. Também tentei suicídio e foi algo assustadoramente racional. Eu pensava que um suicida estava desesperado, surtado, mas eu simplesmente arrumei toda a documentação necessária para minha filha receber seus direitos e rasguei minhas veias. Não deu certo porque Deus não quis. As marcas permanecem e são para eu mesma nunca esquecer do que minha mente é capaz de fazer. Somente o uso do lítio fez com que pensamentos suicidas saíssem da minha cabeça. Também medito, pratico sequências de yoga em cada e faço aulas de dança. Agora reabri a segunda graduação e pretendo mudar de área. O casamento não resistiu e, sinceramente, não tenho a menor intenção de tentar de novo.
Gratidão e parabéns pela coragem e disposição /\

Juracy Silva disse...

Obrigado Patrícia

Anônimo disse...

Sabe Juracy, sei bem do que vc está falando, o estigma é muito grande! Sou professora há 18 anos e tive um surto terrível na escola há 16, mesmo assim continuei trabalhando, dez anos depois outro surto, tentei o suicídio, fui parar num hospital psiquiátrico por 30 dias, sei que foi necessário, precisava ser protegida de mim mesma, mas fui marcada, rotulada, eu que era uma das melhores professoras da cidade, sempre requisitada, agora não passo de uma professora readaptada jogada de um lado pra outro. O sentimento de inutilidade é muito grande e olha que eu ainda luto muito pra ser respeitada, mas estou cansada. Às vezes revoltada eu parava a medicação, mas aí era crise na certa, agora sigo o tratamento pra tentar ser uma pessoa mais ou menos sociável. Se eu pudesse voltar no tempo e me controlar eu jamais deixaria alguém perceber ou saber que sou bipolar, pq pensa ter um transtorno mental numa cidade de 45 mil habitantes!?

Srta.Francamente (amedeiros1980@hotmail.com) disse...

Nós, bipolares, sempre percebemos alguma semelhança em nossos relatos. Também de família humilde, me destaquei por meu desempenho escolar e acadêmico, o que me rendeu a primeira graduação (cirurgiã-dentista) das últimas gerações de nossa família. Era modelo de bom comportamento, dedicação aos estudos e superação de adversidades financeiras e familiares. Assim, recebia incentivo e apoio financeiro de familiares e era poupada de algumas dificuldades, na medida do possível, para que pudesse vencer minhas batalhas. Com uma trajetória estudantil de excelente rendimento, minha carreira profissional iniciou-se com boas classificações em concursos públicos para docência (temporários): níveis superior (federal e estadual) e técnico (estadual); e clínica municipal (servidora efetiva), todos assumidos. Além disso, organizava meus horários para trabalhar em consultório particular, logo montei meu próprio. Tinha uma agenda profissional de início de carreira bastante movimentada e estava muito motivada. Paralelamente a esse bom desempenho, desde a pré-adolescência começou a se desenvolver uma série de sintomas: baixa auto-estima, perfeccionismo, TOC (Transtorno obsessivo compulsivo), tristeza, angústia, pensamentos suicidas, que eu escondia e manifestava na forma de timidez e comportamento retraído. Tudo era visto como meu jeito reservado de ser, ao passo em que eu procurava ser sempre muito cordial, simpática e gentil com todos, demonstrando o máximo de alegria que me era possível quando estava em público. Escondi a doença que se instalou e se agravou progressivamente desde a puberdade. Ao receber meu primeiro salário, em 2004, minha primeira providência foi consultar um psiquiatra. Desde então, têm sido 12 anos de inúmeros diagnósticos, tratamentos, crises, desistências e retomadas. Durante esse período houve... fim de um casamento de 6 anos (por minha iniciativa) após 6 meses do nascimento do meu filho, episódios isolados de compulsão por compras, por sexo, TOC, algumas tentativas de suicídio, 2 internações em UTI (quase morte), 1 internação em clínica psiquiátrica (41 dias), inúmeras licenças médicas, fim de um noivado (uma das piores rejeições de toda a minha vida, duro golpe), venda do meu consultório particular, desligamento das atividades de docência, pedido concedido de aposentadoria por invalidez psiquiátrica. Após ter tido 3 relacionamentos conturbados em toda a minha vida (rejeitada pelo primeiro namorado, rejeitei um marido, rejeitada pelo noivo que amei profundamente e por quem ainda sou obcecada), tive sexo compulsivo com um sem número de homens que desconheço, hoje não tenho vida social, não tenho amigos, nem com minha família me comunico bem, vivo dentro de casa, sou aposentada aos 35 anos, durmo quase o dia todo, não consegui constituir uma família como gostaria (pai, mãe, filhos). Nem fé me resta mais. Meu ex-noivo me fez conhecer a Igreja Batista com a qual me envolvi bastante durante 3 anos, mas abandonei. Moro em uma cidade muito pequena, não quero sair na rua pra não ver ninguém da igreja, nenhum ex-aluno, paciente, ex-colega de trabalho ou principalmente o ex-noivo (tenho psicose de encontrá-lo em qualquer lugar). Não tenho perspectivas, esperanças, objetivos e vejo meu final muito mais triste do que o presente em que vivo: solidão, tristeza, demência, invalidez, sacrifício para mim e para os outros. Minha vida afetiva, emocional, profissional, tudo decaindo. A única coisa que me mantém viva é o sorriso do meu filho. Ele é a minha luz. Eu queria que os remédios me anestesiassem a dor. Às vezes tenho a sensação de embotamento, total ausência de sentimento, mas na maioria das vezes é o vazio, a falta de qualquer coisa que nunca vou ter, a impotência, a inutilidade e a vontade de não existir que predominam. Aos bipolares que não sucumbem ao suicídio, a maioria segue uma vida cheia de altos e baixos (infinitamente profundos) cheia de lutas injustas quase nunca vencidas pela ilusória promessa de “estabilidade” prometida pelo tratamento vitalício. Desculpem-me a franqueza.

Anônimo disse...

Realmente os relatos são todos parecidos, somos um turbilhão de emoções e o pior é a culpa que fica quando a impulsividade passa,é uma dor insuportável,um sofrimento terrível,fracasso, vergonha, baixa auto estima, enfim....ah, e a coragem do suicídio? AH, essa é a dor pior, você ter coragem de nao te querer mais vivo, QUE DOENÇA É ESSA QUE NOS FAZ MORRER INTERIORMENTE? E tem o estigma como já foi falado, você é rotulado de diversas formas, é excluido, é humilhado, e a maioria dos casos, são pessoas corajosas, com histórias de superação incríveis, inteligentissimas,honestas e muito trabalhadoras,....eu queria entender quem eu sou? ME tratam como depressiva, tomo remédios fortes, mas a 10 anos atrás um psiquiatra me diagnosticou com TAB, eu não conhecia e não dei crédito nenhum a ele,minha vida foi se tornando cada vez mais sofrida e hoje, tenho 48anos e quero me salvar e ser normal como todos e sem preconceitos,pois não sou bipolar por opção, eu nem sei como acontece, nascemos assim? Desenvolvemos a doença com o passar dos anos,porque ela é lenta, nos mata bem devagar e no final dá a tacada final e destrutiva...parece filme de Alien...gostaria sim de participar de algum grupo de auto ajuda,não só para me ajudar,como para ajudar outras pessoas...

Anônimo disse...

Poxa, sei como se sente, não comento que tenho TAB porque o preconceito é grande, é uma doença que as pessoas não acreditam que exista e a nossa maior falta é o carinho,como sinto falta em excesso,nunca é o bastante,sempre falta e na crise essa falta, o sentimento da rejeição nos dá tanta tristeza que a coragem de morrer tem um alto grau de encorajamento...

Juracy Silva disse...

Queridos amigos!

Li atentamente os relatos aqui postados, e se não formos cuidadosos, guardadas as devidas proporções, pensamos que as histórias que estão sendo contadas se confundem com a nossa. Tamanha é a semelhança dos sentimentos e das angústias. Se me permitem, gostaria de compartilhar dois fatos que me ocorreram nas últimas semanas. O primeiro, foi um interrogatório que fui submetido perante um Desembargador, que é responsável por colher as provas no meu processo administrativo, onde estou tentando provar que pratiquei vários atos irregulares em decorrência do quadro maníaco. Durante minha fala, onde explicava meu comportamento, minhas tentativas de suicídio, bem como quando fui diagnosticado -um ano depois-, o mesmo (desembargador) dormia na minha frente. Tive a sensação de que estava contando um história fantasiosa. Onde a doença só existe na minha cabeça e na mente de alguns psiquiatras. Quando parei de falar, ele despertou. Saí do Tribunal sem direção, sem querer falar com ninguém, com vontade de dormir eternamente. Me senti um lixo. Hoje, duas semanas passadas, meu quadro é depressivo, mesmo medicado, estou há mais de 5 anos tentando reparar os danos que causei a terceiros - endividamento -, pedi perdão há mais de 200 pessoas. Consegui restaurar a minha família. Mesmo assim, como o indigitado Relator, muitas pessoas me tratam como um golpista, que não tenho nada, já que uma doença não é capaz de trazer uma desordem social com tanta intensidade. Confesso que só não desisto, porque hoje por volta das 11 horas, estava deitado, cobrindo-me com três cobertores e meu filho que é surdo, foi até minha cama e deitou ao meu lado e me abraçou. Isso é que me sustenta e me faz acreditar na vida. Forte abraço. Temos que perseverar.

Gabriela R. disse...

Olá juracy, boa noite! Acompanho alguns blogs sobre bipolaridade e vi seu comentário se referindo a uma possível volta a magistratura, se confirmada a fase maníaca no ato de algum episódio que vc passou! Gostaria de trocar e-mail com você, pois sou estagiária do Ministério público do estado do RJ, tenho 23 anos, e ingressei em uma promotoria junto ao tribunal do juri ano passado. Foi lá que descobri ser Bipolar! Precisei entrar de licença durante 12 meses devido a um surto, período esse em que fui extremamente hostilizada(impressionante como os depoimentos são sempre parecidos), e retomei minhas atividades tem 3 semanas! Gostaria muito de conversar com você no privado, não só pra trocarmos experiência, mas como somos da mesma área, gostaria mesmo de te conhecer, pois meu sonho é seguir carreira na magistratura, porém tem sido e com certeza será um pouco mais trabalhoso devido à descoberta da bipolaridade!
Retornei ao trabalho mas o meu caso se tornou muito famoso aqui no RJ, tanto no trabalho quanto no meu bairro, e até mesmo na faculdade! Precisei sair! Desde já agradeço! E desejo sucesso no seu retorno á carreira!
Email: gabrielarezz@hotmail.com

Arlindo Pereira disse...

Boa Tarde a Todos,
Gostaria de compartilhar minha historia com vcs. Comecei a trabalhar em um emprego formal aos 17 anos em uma lanchonete na funcao de copeiro na cidade do Rio de Janeiro, onde permaneci por 2 anos. Em seguida entrei no ramo da Hotelaria em funcoes simples. Depois de varios cursos e dedicacao intensa alcancei a Gerencia Geral de um hotel com 110 aptos e cerca de 100 funcionarios com 34 anos de idade. Me casei com 24, minha mulher com 21. Temos 2 filhos, um com 27 e o cacula com 21.Depois de 2 anos na funcao de Gerente comecei a sentir uns sentimentos estranhos, comecaram a vir pensamentos de que eu nao estava qualificado para a funcao. 01 ano depois, em 2000 pedi demissao e fui trabalhar em funcao mais simples,achando com isso que resolveria meu problema como Recepcionista em hotel de luxo em Ipanema. Mas a depressao continuava e agora comecei a sentir mais dois efeitos estranhos, Uma certa alegria demasiada e uma irritabilidade. Tudo isso se alternando. Comecei a gastar alem do meu rendimento, a beber com mais frequencia e ser uma paquerador entusiamado. Ate que 2004 tive um desentendimento com meu chefe e fui mandado em embora. Em 2001 procurei um psiquiatra que me diagnosticou como depressao. Ainda em 2004 consegui um outro emprego de Recepcionista, onde permaneci ate 2009. Comecei a discutir com colegas e hospedes nas fases de irritabilidade. Na euforia falava alto e muitas vezes era incoveniente com os hospedes e colegas. Procurei um outro psiquitra que me diagnosticou com a TAB ,depois de comprar um veiculo de alto luxo, que minhas condicoes financeiras nao permitiam. Desde 2009 estou em Auxilio Doenca. Tenho 52 anos. Moro na cidade do Rio de Janeiro, sendo minha origem de uma pequena cidade do Estado do Ceara. Gostaria de agradecer a todos que compartilharam conosco suas historias, que de uma certa forma nos identificamos. Caro Juraci, parabens por expor seu problema conosco e pelos esforcos que lhe propiciaram uma ascencao profissional tao bonita que trouxe melhor qualidade de vida pra vc e seus familiares. Tambem tenho um cunhado que passou para o TRF aqui do Rio como tecnico, depois de concluir o curso de Direito, passou para Analista, atualmente e diretor de uma Vara e tenta passar para a Magistratura. Infelizmente com esta TAB, a minha energia e baixa, como tenho uma timidez alta. Isso mesmo medicado. Desejo a todos vcs o melhor que esta vida possa oferecer.
Atenciosamente
Arlindo Pereira

Juracy Silva disse...

Caro Arlindo

Agradeço por se alegrar comigo nas minhas conquistas, mas tenho a considerar que enquanto a fôlego, temos direito à vida. Ou seja, o amigo deve buscar superação. Abraham Lincoln, certa vez declinou a seguinte frase: "Ser feliz não é ter uma vida perfeita, mas deixar de ser vítima dos problemas e se tornar o autor da própria história". Embora vc esteja recebendo o Auxílio Doença, ainda é novo e pode reinventar, resignificar, se autodeterminar em recomeçar ou continuar sua história. O diagnóstico do TAB certamente nos traz dor, mas sofrer pelo transtorno é uma opção. Quero dizer, nós precisamos rejeitar o sofrimento de ter a doença, pois isso nos faz paralisar. Temos que buscar a estabilização e, uma vez alcançada, vamos a conquista dos nossos ideais e sonhos. Nota-se os atletas inscritos nas paraolimpíadas. Todos vivem superações, pelo que nossas limitações também são superáveis. Podemos ir longe. Eu, vc e muitos que estão aqui precisamos fazer história. Forte abraço.

Pábula Educar disse...

Eu preciso de ajuda.Diagnosticada a pouco tempo..mas precisamente há um ano com depressão e há 3 meses do Transtorno bipolar.Tenho 29 anos.Sou Professora e não consigo olhar o escola..para os alunos..para minha família..não tenho amigos..
Mas nem sempre fui assim..pelo menos fingia acreditar nas pessoas..e toda dor q eu sentia..escrevia em minhas agendas..
Não sou certo com namorado.Já noivei e vejo q são os mesmos motivos q me fazem ficar sozinha de novo..e de novo..
Percebo que meus colega professores acham q isso é uma frescura..pois todo mundo tem seus momentos bipolar..é isso q dizem..eu me torno agressiva de repente..eu era feliz..pelo menos achava..
Não consigo e não tenho força pra tomar todos os dias as medicações..elas me dopam..suicídio é o que mais tentamos..até consegui um dia..

Juracy Silva disse...

Prezada Pábula,

Conheço os seus sentimentos, e consigo entender a dimensão de seu sofrimento. Isso porque, os sintomas da patologia são comuns em alguns momentos e aspectos, variando, apenas, de acordo com a intensidade. Minha experiência, conforme alhures anunciei, me trouxe sequelas irreparáveis, tanto em relação aos relacionamentos, quanto as perdas. Todavia, uma coisa posso te afirmar: eu não desisto. Convivo com sentimentos de rejeição, desejos de autoextermínio, vontade de desaparecer. Tudo isso representam nossos fantasmas.
Doutro lado, é possível se determinar, acreditar e recomeçar sempre. Eu não abro mão disso. Reconhecer a doença, submeter ao tratamento e respeitar nossas limitações, faz parte do "vencer". Seu desabafo me traz inquietação, pois a forma de enxergar a vida, determina quem somos. Não importa o que dizem a seu respeito, o que vai fazer a diferença é vc não subestimar os fantasmas, lutar contra eles e não abrir mão da beleza que é a vida. Não estamos sozinhos, quando ouço vc dizer que está superando, isso me fortalece a também buscar a superação e, assim, vamos nos ajudando. Não perca a esperança e a fé. Forte abraço.

Beto Sales disse...

Olá, Juracy!

Você comentou sobre o trabalho. Almeja reversão? Pergunto por que estou em situação semelhante, tentando retornar ao trabalho.

Atenciosamente,

Antônio Sales

Juracy Silva disse...

Olá Beto!

Na verdade minha aposentadoria não foi efetivada, visto que após o tratamento foi atestado a remissão total dos sintomas e a estabilização do humor.

No entanto, considerando que o processo administrativo estava arquivado pelos atos que pratiquei durante a crise, ele voltou a tramitar e estou afastado por conta disso.

Minha luta agora é provar que os atos que pratiquei, violadores do código de ética da magistratura, estavam associados ou eram compatíveis com os sintomas da patologia.

Banda outra, ainda que estivesse aposentado, certamente tentaria a reversão, pois tenho que a doença não é incapacitante. A não ser para os colegas que perderam o controle e não levam a sério o tratamento. Mera opinião.

Ab

Beto Sales disse...

Olá, Juracy!

Obrigado pelo retorno. Boa sorte em sua defesa!

Abraços,

Beto Sales

Guilherme Rangel disse...

boa noite, me chamo guilherme,
a pouco tempo venho sentindo umas sensaçoes esquizitas, emoçoes confusas, sentimentos instaveis e bastante vontade de evitar o contato pessoal/social com as pessoas,
tirando no trabalho que e obrigatorio, minha maior duvida agora, alem da necessidade em aprender a lidar com isso e achar um espaço ou pessoas que superaram isso e dividam
alguma experiencia.

dexo meu email: g.austorangel@bol.com.br por favor ajuda

Mente inquieta disse...

Bom dia Guilherme,
É muito importante ter um espaço para compartilhar com outras pessoas que sofrem por coisas parecidas com vc.
Quando conhecemos um grupo, vemos que não estamos só.
Existem alguns grupos em algumas cidades do Brasil, grupos de apoio a portadores e familiares de transtorno bipolar.
Aqui no blog, na parte de cima, tem uma aba que se chama “ Grupos de Apoio” clica nela que vai te mostrar os locais que tem.
Ou vc pode pesquisar na barra de pesquisa do Blog “ Grupos de apoio” que vc vai achar a lista de grupos de apoio.
Infelizmente não tem em todas as cidades, caso a sua cidade não esteja na lista de grupos de apoio especifico para bipolares, uma boa alternativa que eu indico para vc são os Grupos anônimos.
O Grupo anônimo N/A , neuróticos anônimos é para todas as pessoas que tem algum problema emocional, que tenham depressão ou outro diagnostico, ou que nem tenha diagnostico, mas tem problemas emocional que atrapalha o seu dia a dia.
Esse grupo anônimo tem em todas as capitais do Brasil. Caso não ache um especifico de apoio para bipolares, recomendo que vc vá nesse grupo anônimo, pois é um grupo muito bom, vai te acolher e vc conhecerá outras pessoas que passam dificuldades parecidas.
Site do N/a : http://www.neuroticosanonimos.org.br/
Lá dá para pesquisar por cidade.
Boa sorte!
Abraços

Juracy Silva disse...

Olá Guilherme!

Os grupos de apoio são extremamente importante para compreendermos os sintomas da doença e a evitação de graves oscilações do humor. Não obstante isso, uma coisa que apreendi a fazer e que me ajuda muito é escrever e pesquisar sobre a doença. Depois que comecei esse exercício tive mais sucesso quanto a rejeição ao estigma. Hoje não tenho medo, vergonha ou qualquer problema em falar para as pessoas que sou portador do TAB. Ao contrário, faço meu dever de casa, explicando e conscientizando as pessoas de que é uma patologia como qualquer outra e não impede a pessoa de ter uma vida normal, tendo apenas algumas limitações. Precisamos debater esse assunto, compartilhar, nos ajudarmos e sairmos do casulo, para dizer a sociedade que somos sujeitos de direito e exigimos respeito. Viver ou conviver com a bipolaridade é estabelecer uma batalha cotidiana. Mesmo assim, sempre digo que a "dor" é necessária, mas o sofrimento é uma opção. Não sofro pela doença, faço dela uma fonte de vida, vale dizer: levanto pela manhã pedindo a Deus que me conceda oportunidade de ser útil a alguém que tem a mesma dor e que eu possa servi-lo com uma palavra de ânimo e de vida. Estamos juntos. Forte Abraço.

Anônimo disse...

Olá, a todas as pessoas q comentaram, expuseram suas vidas e acho que é muito importante a troca de experiencias com os pares. Tive uma relacao de cinco anos com um homem bipolar e como ele nao faz o tratamento direito, ficou complicado continuar. Meu sentimento ainda 4é forte por ele, mas acabei adoecendo muito. Sigam firmes para se melhorarem.

Márcia Paiva disse...

Eu não sou bipolar, mas meu namorado é. O conheço a pouco tempo e percebi que alguma coisa não estava bem. Ele tomava remédio para depressão há seis anos e o quadro voltava. Mentiras, paranóias, fuga, instabilidade...tudo isso misturado com álcool e remédios. Fui sozinha ao psiquiatra dele com autorização do mesmo e depois fui com ele. Na realidade, ele tinha vergonha,nao queria minha presença, desejava esconder, mas eu fui assim mesmo. Conversando com o psiquiatra, acabei revelando fatos que o fizeram perceber que meu namorado não era um alcoólatra depressivo e sim, uma pessoa com TB. Seis meses bebendo e tomando remédio, seis meses não falando coisa com coisa é o lítio o tirou disso. Não bebe há um mês e comportamento mudou. Está equilibrado. A maior aflição que percebo é a dificuldade dele aceitar ser bipolar e não se envergonhar. Ele tem três cursos superiores, pelo menos quatro pós. É uma pessoa arredia pq tem medo de ser exposta. Muito importante o apoio da família e daqueles que amam. Mais importante foi ve-lo tomar a medicação de forma correta. O vejo feliz e mais constante e ve-lo assim é uma vitória. vitória dele, não minha. Parabéns pelo grupo e pela força que dão uns aos outros.

Juracy Silva disse...

Olá Márcia!

Seu testemunho muito nos edifica nesta página, pois sua atitude não só revela seu sentimento com seu namorado, mas acima de tudo seu gesto de nobreza. A maioria das pessoas desistem, e isso aplica-se até mesmo a família. Para o portador do TAB, lutar sozinho é uma aflição de alta dimensão. Quando temos alguém do nosso lado que aceita o desafio de compreender a doença e não teme-la, fortalece nossa alma. Ficamos mais fortes e dispostos ao tratamento. Compartilho diariamente com minha família minhas oscilações de humor e minhas aflições, e recebo de todos eles todo o apoio e carinho. Mesmo estabilizado, temos momentos ruins em decorrência dos efeitos da medicação, mas poder contar com alguém é o primeiro passo no caminho da vitória e da rejeição do sofrimento. Parabéns! Que Deus te abençoe e que seu namorado saiba que somos normais, temos uma patologia que não nos torna diferente. Ao revés, precisamos nos unir para eliminar a marca rotulatória. Nossas homenagens.



MAURICIO JARDIM disse...

Boa noite, estava lendo os relatos aqui postados e vi como nós bipolares sofremos com a doença e com o preconceito, estou 16 anos me tratando, fui diagnosticado desde 2014, minha bipolaridade tende mais para depressão, mais muita depressão, baixo estima, síndrome de culpa entre outras coisas que nos faz sofrer muito, tenho menos momentos de mania, euforia, mais não sei o que é pior, pois a depressão a cada dia leva uma parte dos meus sonhos embora,me grato corrente, faço terapia e mesmo assim as crises depressivas são constantes, muitas vezes levavam meses. Não desejo isso para ninguém, se não fosse minha esposa e meus filhos, não sei se suportaria, pois não tenho mais vida social, não trabalho, pois em todos tive problemas que todo já devem saber, faltas, brigas por aí, hoje estou pelo INSS e mesmo assim só consegui pela justiça, pois os peritos falavam que era frescura, pois até então não sabia que era bipolar, era dado como depressão, já estudei muito sobre essa doença, li muitas coisas coisas sobre ela, só que fora a bipolaridade tenho hérnia de disco na cervical e lombar, que me impedem de fazer exercícios, o que melhora bem no caso da depressão, tive que para de dirigir, jogar bola, malhar, caminhar meu mundo Caio em um abismo total. Nunca posso marcar nada, pois nunca sabemos como vamos estar, normalmente nós bipolares não aceitamos regras, eu hoje não escondo a minha doença, mais vejo meus amigos bebendo umas cervejas, jogando bola, marcando encontros para escutar músicas, beber e jogar conversa fora e eu nunca estou, ou estou na depressão, e se estou na mania( euforia) sinto muita vontade de beber, pois bebo somente cerveja, as vezes meu médico libera, mais quando bebo né sinto culpado por achar que estou fazendo vc mal para mim em beber, meu mundo está totalmente parado, desisti de fazer 3 vezes provas para o vestibular, amo história, amo ler tudo sobre o assunto, mais a doença não me deixa viver meus sonhos de fato, realmente é muito complicado viver ass