Bipolares Artistas- Escritor


Lestat de Lioncourt**


Lestat de Lioncourt é um Gaúcho, porto-alegrense, de 35 anos, formado em Bacharelado e Licenciatura em História pela UFRGS (2006) e criador do blog “Tormentas Psíquicas”, onde escreve poesias inspiradas no TAB.


"Aquele que souber expressar, com toda felicidade, toda a sua infelicidade, já não será tão infeliz!" (Mário Quintana). Bem, sou um homem fazendo de um limão uma limonada... Recomendaram terapia? Então, aqui estou, escrevendo sobre meus revezes de forma que a dor tome cores de arte...”

1.Como é esse processo da Dor virar Arte ? E como se a dor fosse uma das suas inspirações e você usasse o escrever como uma terapia?

Sim, exatamente. A dor e a minha experiência com o TAB são sem sobre de dúvidas minhas maiores inspirações, sendo que essa dor que refiro decorre 99% da minha experiência psíquica... Sempre considerei os problemas do “andar de cima”, além do elemento genético (há vários casos na minha família) frutos de nossa época: muita pressão, muita auto-exigência, dançamos ao sabor do que o Capitalismo nos pauta, e isso nos frustra... Sempre vi a psicoterapia como uma saída perfeitamente normal para lidar comigo mesmo, mas faltava algo... Esse algo veio na forma da escrita, ao transformar minhas dores e angústias em arte me sinto um pouco mais leve, fazendo do meu sentir uma experiência estética, que vem ao encontro de tudo o que mais gosto em termos de pensamento: História, Literatura, Arte, Poesia, Histórias em quadrinhos, Cinema... Comecei a escrever esparsamente em 1996, mas para valer mesmo a partir de 2007. Atualmente, além dos poemas que publico no blog, estou redigindo meu primeiro romance (que também tem por tema e inspiração angústias psíquicas...). Parece pretensioso falar de “romance”, mas o meu conto – idéia inicial - ficou com muitos elementos e passará tranquilamente de 40 páginas...

2.Qual dos seus poemas que foi mas profundo nesse processo de dor da criação?

Puxa, seria difícil escolher apenas um, pois todos são a essência do que sinto... E aqui vale um ponto a ressaltar: falo muito sobre morte, suicídio, loucura, questões que rondam a vida de quem sofre de depressão e bipolaridade, mas por canalizar esses sentimentos e pensamentos em forma de poemas não quer dizer que amanhã eu vá me matar ou enlouquecer, pelo contrário (e muito menos ser um apologista do suicídio)... É próprio da arte carregar nas cores, para torná-las mais expressivas... Para mim também é uma forma de exorcizar meus demônios, me sinto mais leve e longe deles se “os aprisiono” em poemas ou prosa... Um dos poemas mais profundos, que ainda não está publicado no blog (farei isso brevemente) é “O Cântico Soturno das Criaturas”, escrito num período de profunda tristeza e depressão. Minha esposa achou o manuscrito e (assustada) me perguntou: - Tu mostrarias isso aqui para a tua mãe? – De fato não, ela não entenderia (até por preocupação de alguém que te ama, que a minha esposa manifestou), assim como outras pessoas também não (por puro preconceito de querer te taxar de maluco)... Existe um preconceito quanto a expressarmos nosso sofrimento e um maior ainda quanto a isso poder conter qualquer beleza artística... Felizmente Augusto dos Anjos e muitos outros já me absolveram nesse julgamento...

3. No poema “Tormentas Psíquicas " no qual você usa a imagem de um dos Quadros de Van Gogh, me chamou a atenção o fato você falar das idéias, do conhecimento pode ter levar ao novo mundo e também dar vida à frotas inimigas.. Esse excesso de informação, das coisas, lembranças, acumuladas na nossa mente, podem também nos fazer mal ?Isso seria a tormenta psíquica?

Gostei da sua menção a esse poema, na realidade escrito muito depois de eu batizar o blog como “Tormentas Psíquicas”... Ele fala do conflito básico de alguém que possui TAB: lidar com os extremos. Uma euforia poderia te levar a “descobrir o Novo Mundo”, ter idéias brilhantes, ficar mais alerta, ativo, mas também “dar vida à frotas inimigas” através de pensamentos paranóicos... Esses “choques” de pensamentos, passando por períodos em que estamos “equilibrados” (estamos?) são as tais “Tormentas Psíquicas”... Sim, tudo que guardamos em nossa mente, sejam lembranças ou conhecimentos, podem nos prejudicar se ela – a mente – não estiver usando-os de forma “correta”... “Orai e vigiai”, como diz nos Evangelhos. Quem trata sua mente deve estar sempre atento aos seus sinais e ter bom acompanhamento médico. Apesar do preconceito que, infelizmente, ainda suscita, a psiquiatria é tão importante (e natural) para mim quanto qualquer especialidade médica que possa curar meu corpo...

4.Gostei do seu poema “Ponto de Ruptura”. O fato de você ter estudado historia te influencia ou serve de inspirações para alguns poemas?

Não só, mas de sempre ter sido um profundo apaixonado por Literatura, dos clássicos à ficção, passando por Cinema (daí o Frankenstein do poema e a imagem do monstro ateando fogo a si mesmo no Ártico), Histórias em quadrinhos (leio desde os sete anos e atualmente tenho uma coleção de 800 exemplares, centrados sobretudo em super-heróis) e, mais tarde, poesia. Amo toda ficção, desde Machado de Assis a seriados como Smallvill, Heroes e Supernatural. Escrevi certa vez uma frase: “ A realidade é por demais dura e abstrata; opto, portanto, pela suave concretude da fantasia.” Canalizo o que sinto através de diversas inspirações que vem dessas fontes todas... Na História mesmo me localizo numa vertente de pesquisa mais conhecida como “Nova História” e também na “História Cultural”, mais preocupadas com o que pensavam e sentiam as pessoas do que com a economia e relações “concretas”, grosso modo. Também sou um aficcionado por Ocultismo e Religiões, escrevi um poema sobre elas chamado “Fé(s)”: um passeio pelo sagrado”, está no blog. Minha ligação com os quadrinhos já inspirou dois poemas (“Contenção” – já postado) e “Super-herói”.

Em breve escreverei e postarei o artigo “Hulk – uma abordagem bipolar”, onde traço um perfil do super-herói da Marvel Comics ligando-o ao TAB (o contraponto do frágil e depressivo Dr. Bruce Banner com o irado e psicótico Hulk). É uma idéia que vem amadurecendo desde o ano passado, está na hora de escrever...

5.Como você definiria Lestat de Lioncourt?

Através de tudo o que eu escrevo... Li em algum lugar que, o grande escritor é aquele que consegue fugir de suas “misérias pessoais” e escrever como se fosse “outro ser”... Nesse ponto sou um miserável assumido: cada linha, cada vírgula que escrevo, mostra algo que sinto... Não existe “um” Lestat, existem vários, com várias faces cada. O ser humano é múltiplo... Nesse ponto, penso: se tenho tantas facetas minhas a explorar, será que preciso mesmo me “superar” e escrever como se fosse outro? Bom, isso mostra que o Lestat, apesar de escrever predominantemente sobre angústias existenciais, também é um cara bem-humorado...

6.Qual é o endereço do seu blog "Tormentas Psíquicas"?

http://dominusvobiscumpfes.blogspot.com/



**Lestat de Lioncourt é um dos pseudonomes do autor, por motivos pessoais não quer ser identificado.

5 comentários:

Eu disse...

Meu nome é Ana Laura e passei por isso, de uma depressão sairam mais de 250 poemas em rima livre e alguns sonetos tristes.
Meu primeiro livro será editado em Portugal, selecionado em um concurso literário, pela Editora Corpos da Cidade do Porto.
o nome kkkk "Surto Poético Delirante". Eu poeto cotidianamente minha dor, e quando muito feliz, entro em rima.
Grande abraço e parabéns pelo espaço.

Zé Henrique disse...

Nossa. Simplesmente genial esse blog.
Não acredito que consegui achar ele, simplesmente clicando em "próximo Blog".
Também sofro de TAB a algum tempo. E também tento exorcizar os meus demônios escrevendo...

Vou acompanhar sempre esse blog, tenha certeza.

Passe no meu, que com certeza compartilharemos de nossas angústias.

Um abraço.

Roselene disse...

Olá Viviane!

Em primeiro lugar, quero te parabenizar pelo blog sobre bipolaridade, que é SENSACIONAL. Eu também sou portadora da doença e estou estabilizada após dois anos de tratamento. Porém, a luta continua, como diz nosso companheiro Lula, porque a gente deve estar sempre se vigiando.
Eu tenho dois blogs: um, dedicado ao grupo vocal MPB4 (http://mpb4cavaleirosdampb.blogspot.com), devido ao interesse que eu tenho por música e outro sobre a reintegração dos pacientes psiquiátricos (http://saudementalereintegracao.blogspot.com), pois é uma bandeira de luta.
Mais uma vez, parabéns pela iniciativa e espero que ela continue dando frutos.

Um grande abraço,

Roselene Cândida
Ceilândia/DF

Roselene Cândida disse...

Olá Mente Inquieta!

Obrigada pelo comentário! A minha luta começou porque, quando descobri o diagnóstico da minha bipolaridade, eu sofri inúmeras humilhações e preconceitos no meu ambiente de trabalho anterior. Eu já trabalhava num local estressante e pleno de pessoas egoístas durante cinco anos, o que me fez ficar muito doente. Porém, no ano passado, dei um basta nisso, pois discuti feio com minha ex-chefe, responsável por boa parte das humilhações.
Eu já sofri preconceitos por parte de uma prima, que morou aqui na minha casa durante três anos e fazia sempre comentários jocosos a meu respeito. Cheguei a ponto de colocar minha mãe na parede dizer à ela o seguinte: ou ela vai embora ou eu vou. Hoje, por ironia, seu filho é portador de doença mental.
Todos têm o direito de ser felizes e de receber um tratamento digno, porque todos são filhos de Deus. E o ser humano não gosta de gente altiva, ainda mais quem possui uma doença mental. A sociedade sempre tenta nos colocar no escanteio, mas não vai conseguir nunca. Por isso que não parei de trabalhar, de estudar, de ter meus hobbies e de ter uma vida normal. Na realidade, somos normais; a sociedade tenta nos rotular como inúteis.
A minha luta não deve ser única, mas compartilhada. Por isso, troquei de profissão (faço o 3º semestre de Direito e meus estudos concentram-se sempre neste tema) e milito a favor dos direitos dos portadores de doenças mentais. Pode ser distúrbios psiquiátricos, crônicos ou não, ou limitações intelectuais.
Continue com este espaço maravihoso e sempre frutífero, pois também você mostra o exemplo de pessoas que são bipolares e que contribuem positivamente em diversas áreas.

Bjs,

Roselene Cândida

Lucíolo disse...

Interessante ter lido isto.
Ainda mais por saber que o entrevistado tem o mesmo nome de um personagem lendário de um dos contos da Anne Rice. rss
Bom, seria bom para quem se interessar ler sobre Freud.
Ele relata sobre um fenômeno chamado SUBLIMAÇÃO.
Que consiste converter comportamentos inadequados, loucura, em algo que seja socialmente aceito.
Como um quadro, uma poesia ou música.
E isto vem crescendo muito entre os portadores de transtornos, sejam esquizofrênicos, bipolares, depressivos. Todos estes tem uma visão diferente do que o mundo realmente seja e esta dinâmica do revelar-se na arte é muito difícil.
Freud considerava um atributo que pouquíssimos "loucos" pudessem atingir. A sublimação.
E outras pessoas gostam de saber dessa percepção de mundo, e vida que nós temos. Por isso o fato de ser socialmente aceita.